Eu queria estar errada. Queria poder me olhar sério no espelho e dizer: Larga mão de ser boba que você não sabe de nada e não é nada do que está imaginando. Eu realmente queria. Mas ao mesmo tempo em que muitas vezes essas conexão com o espiritual me trás coisas boas me permitindo ajudar ao próximo e tirá-los de seus fardos, também é algo que me proporciona muita dor por acabar pressentindo o que virá pelo caminho.
Há semanas eu pressenti o que estava acontecendo e é um absurdo o quanto tudo foi se concretizando com tamanha precisão. Agora, sei demais. Sei mais do que eu gostaria de saber e muito mais do que eu suportaria saber a essa altura do campeonato.
Em algum momento eu acreditei que eu era alguém especial pelo acontecimento dos fatos. Acreditei em uma verdade que palavras deixavam subentendida. Acreditei em tantos sinais que hoje eu me pergunto se eram sinais ou apenas "sujeirinhas na tela", que era possível passar um pano e tirar. Eu realmente acreditei que tinha tido um papel especial pelo tanto que havia conseguido, mas o doce realmente só é doce acompanhado do amargo. E por um bom tempo eu saboreei o doce de forma tão gostosa, que eu esqueci que ele sempre, sempre e sempre vem acompanhado do sabor amargo. Afinal de contas, como conseguiríamos valorizá-lo se não soubéssemos o sabor do seu oponente? Doce ilusão. Doce tão doce, que quase me causou diabetes.
A todo momento eu fui o máximo que eu poderia ser. Não escondi, não menti, não deturpei. Entreguei a mais pura e verdadeira face de quem eu sou, com seus amores e dissabores. Baixei a guarda, me expus, contei coisas que jamais contei à pessoas que ficariam felizes em saber que compartilhei segredos, mas escolhi compartilhar apenas com aquela pessoa que eu confiei naquele momento. Nesse período, descobri coisas sobre quem eu sou, que jamais sequer imaginei. Peças foram se encaixando e mostrando maiores detalhes do quebra cabeças.
Me permiti coisas que há anos não me permitia, por diversos fatores, fossem eles bons ou ruins. Comecei a ter uma visão diferenciada de tudo na minha volta e estava maravilhada com tudo o que estava vindo na minha direção. O que diabos eu havia feito para o mundo, para finalmente depois de muito tempo de dor, acontecerem coisas boas no meu caminho?
Então eu me agarrei com todas as forças naquela alegria, aquela situação e aquela pessoa que estavam me trazendo de volta a vida. Que me mostrava sua verdadeira face e que queria conhecer mais da minha. Ansiei por acontecimentos que eram recíprocos, não apenas mais algo que eu sonhava sozinha em minhas imaginações, mas acontecimentos que estavam pipocando sentimentos dentro de mim.
Me permiti.
Aceitei que coisas boas poderiam acontecer em minha vida. Que eu não precisava ficar o tempo todo com a lâmpada de alerta ligada, me preparando a todo momento para uma guerra. Aos poucos eu me aproximei daquele botão e tentei permanecer de pé com a lâmpada apagada. E devo admitir, estava cansada daquela lâmpada vermelha. O conforto de finalmente dormir no escuro após tantos anos com aquela luz atrapalhando meu sono, era.... tranquilizante.
Mas como havia baixado a guarda, não estava contando com o que sempre acontece, a insegurança. Pouco a pouco ela foi se instalando na minha volta, passando uma gigantesca borracha em tudo aquilo que havia novamente tomado cor. Os verdes estavam tomando cor de oliva, as flores estavam perdendo suas folhas e o céu já estava escurecendo e ficando carregado de nuvens.
Certo dia, levei a rasteira, o soco na boca do estômago, o tombo e ainda fecharam a porta na minha cara. Eu estava novamente sozinha, com aquele sabor amargo que me causava novamente náuseas, dores em todos os cantos devido ao tombo ser tão brusco e desacreditada do que havia visto. Em menos de dois dias a luz se acendeu, mas dessa vez foi diferente, foi violento. Ela se multiplicou e com ela havia um conjunto de lâmpadas vermelhas que piscavam freneticamente. É isso então? Acabou pra mim?
Não pude admitir que havia provado daquele sabor e teria de conviver com aquele gosto amargo na boca. Não era justo, não era certo, não era bom.
Me dediquei até ficar exausta de tanto me expor, tentando falar sobre tudo aquilo que não mais poderia ser mencionado, em uma vã tentativa de conseguir qualquer vestígio do que já se foi. Claro, inútil..
Mas as lâmpadas insistiam em não me deixar dormir. Aquela conexão toda com o espiritual estava mais do que nunca me fazendo ter idéias que eu tentava me convencer de que eram bobagens da minha cabeça. Porque diabos agora? Porque depois de tantos anos, depois do que aconteceu, porque JUSTO agora aconteceria isso? Boba. Tonta. Palerma. Inocente. É, acho que é isso. Inocente. Fui inocente demais de achar que seria bobagem da minha cabeça.
E depois de todo o ocorrido, hoje eu tenho a certeza que não gostaria. A dolorosa certeza de que o que eu pressenti não era apenas imaginação. Eu fico tentando me convencer ainda de que tem algo de errado, quando eu sei que tudo virá à tona em poucos minutos. Mas para que? Porque me permitir iludir? A quem eu quero enganar com isso? Eu me arrisquei a um nível que não foi valorizado, quando eu valorizei tanto o que vinha na minha direção.
E agora nada me resta, a não ser aguardar pois não tem escapatória. O amargo sempre vem, e o meu chega em poucos minutos.